Teleonomia (Mabuse Desnudando)


Gravações de Vienna, a chuva sobre as estátuas de Goethe e Beethoven, as embalagens de bombons Mozart, uma sessão espírita, vernissage, papparazis, uma nudez no museu, instrumentos na vitrine. Mabuse se desnuda na escuta de Wittgenstein enquanto ele conversa com Allan Turing.

Vermelhazul

Viola, flauta, gaita, risos e roteiros rasgados. Kieslowsky ouve a areia branca na orelha de Kusturica.

"Não parece com, é!"

Id [Entidade]

 
Gravações de um corpo que dança sobre escombros e toca piano e os harmônicos de uma ruína. Pina conta os anos como passos na escuta de Ricardo de Paula.

Selon

Gravações de pedaços de estátuas gregas arranhados contra estátuas alemãs, trechos de 'Pli Selon Pli' e Sprachgesang de Simone Donna. Os olhos de Tim Lehmacher observavam a orelha desnuda de Valéry prostrado sobre o túmulo de Igitur.
Celles qui sont des fleurs légères sont venues, 
Figurines d’or et beautés toutes menues 
Où s’irise une faible lune... 
Les voici 
Mélodieuses fuir dans le bois éclairci. 
De mauves et d’iris et de nocturnes roses 
Sont les grâces de nuit sous leurs danses écloses. 
Que de parfums voilés dispensent leurs doigts d’or! 
Mais l’azur doux s’effeuille en ce bocage mort 
Et de l’eau mince luit à peine, reposée 
 Comme un pâle trésor d'une antique rosée 
D’où le silence en fleur monte... 
 Encor les voici 
Mélodieuses fuir dans le bois éclairci. 
Aux calices aimés leurs mains sont gracieuses; 
Un peu de lune dort sur leurs lèvres pieuses 
Et leurs bras merveilleux aux gestes endormis 
Aiment à dénouer sous les myrtes amis Leurs liens fauves et leurs caresses... 
Mais certaines, 
Moins captives du rythme et des harpes lointaines, 
S’en vont d'un pas subtil au lac enseveli 
Boire des lys l’eau frêle où dort le pur oubli.

Mercúrio, Sal e Enxofre


Um ovo de senóide em crescimento espectral. Mondrian ouve a onda separada do mar.

Uma casca de ruído branco é rompida pela senóide. Agripas e Böhme ouvem o mar na onda.



E ocorre a transmutação das folhas secas em chuva. Os Dogon riem de suas escutas: sal, mercúrio e enxofre.

Dnatura







Sínteses baseadas em fórmulas químicas acompanhadas de uma máquina de papel para criar óperas. O conceito de ópera instantânea para oficinas com qualquer tipo de público. Dnatura tem servido como base para apresentações vocais e workshops por diversas cidades do mundo.


Radiowerkheadkraft

Sampleamento radical das obras completas das bandas Radiohead e Kraftwerk. Abraham Moles brinca com orelhinhas de plástico.

acompanha o drink Headwerk feito com 30ml de cachaça DJ batido com 5ml de Curaçao Azul, um quarto de limão, dois ramos de hortelã e 7 cubos de gelo. Preencha o copo de 300ml com Schwepps Citrus.

Metal, O Riso Dos Demônios


Peça para pianista triste gravado em fábrica de carne em Praga. Paracelsus demonstrando a química léxica e a física gestual na escuta de Ambrose Bierce e Mesmer. A diferença de tempos entre os dedos que digitam e as cordas que palpitam. Jacek Malczewski ouve a melancolia e a nomeia Durer.

Piano no Lixo


{Concerto para} Piano no Lixo. Não use luvas. Me avisem se encontrarem algum piano abandonado. Arman, você consegue ouvir Beuys acariciando-te o ouvido?

Parangolé para A Cosmopedra

Video dança realizada com o Parangolé para Cosmopedra no Matadero Intermediae de Madri, dentro da ARCO8. A couraça é o crack da alma.

Acorirís e IrMarGens

Uma imagem gera outra, um grão de som produz outro. Que importam as programações necessárias para isto? Gratidão a Renzo Filichnich. Metastasis.

Ludofonia de Azar no Jogo de Amar

Três Peças para viola, piano, percussão, baixo acústico e eletrônica analógica. Dostoiévski apostou a orelha no empate , embora Coleman tenha deixado claro que como havia dito Coltrane, as probabilidades estavam do lado de Pascal.


A carta O Sete de Copas apresenta-lhe diversas vertentes, poderá estar neste momento a sentir-se perdido no seu caminho, pode estar a sentir que está a viver uma fantasia ou que se está a deixar levar por um caminho de desmesura e ócio que o está a prejudicar. 


PALAVRAS-CHAVE:Caminhos diversos, Futuro imaginário,Benevolente.

EXPRESSÕES-CHAVE:Caminhos perdidos, Expectativas altíssimas,Vida de ócio, Evitar o indeclinável, Sensação de invencibilidade, Dualidade de benesses, Cegueira passional, Multiplicidade de escolhas.



Oito de Paus podemos ver que esta indica a continuidade eterna, a sensação de movimento contíguo que não tem um início nem fim determinado, é algo teórico e imaterial sem uma representação física. Esta carta representa a nossa intuição imediata, a nossa reacção instantânea disparada por algum acontecimento repentino.

PALAVRAS-CHAVE: Actividades, Originalidades, Preferências, Azáfama, Impulsos

EXPRESSÕES-CHAVE: Dar preferência aos seus desejos, Esclarecer os seus desígnios, Agir com agilidade e rapidez, Entendimento de uma mensagem essencial
Desvendar a peça que falta do puzzle, Progressos céleres, Revisão de deliberações proferidas.






Almachina


Album programado em Pure Data. Miller Puckett toma café com Burroughs e Wiener. Mandelabrot os ouve da sala do servidor.

A Vila e Os Lobos

Peça para viola caipira, violino, clarinete e voz nas comemorações do aniversário de Villa Lobos no parque que leva seu nome para o evento Barulho.org.

Intermezzo
primeiro movimento: a vila
1 padre não consegue dormir, 1 padeiro põe a massa na fornalha, 3 filósofos se reúnem, 9 pedreiros, 2 eletricistas, 4 mecânicos, 6 poetas líricos, 2 poetas malditos sendo 1 laureado, 13 ascetas, 7 heremitas, 12 crianças, 11 cozinheiros, 5 legisladores, 78 trabalhadores braçais, 8 escultores, 1 xamã, 14 músicos, 17 músicos procuram por 1 compositor, 15 burocratas, 16 policiais mas nenhum bandido, 2 pai de santos, 19 roçeiros trancaram suas portas e as marcaram com sangue de novilho, 10 viúvas, 18 jovens perdidos na noite que se silencia, 1 mãe consola seus 2 bebês que choram, 21 mendigos fogem rumo ao norte, 3 mulheres excluídas arrastam 1 compositor(Ernesto) e cozinham sua carne sob a lua.

segundo movimento: os lobos
os lobos cercam a vila
os lobos estraçalharam a vila
um a um e todos
restando somenta as crianças
... quando nasce o dia,
a loba mais velha vêm e amamenta-os


Presenças


Quando Maura Baiochi da companhia Taanteatro de Butoh Nô me pediu trilhas para acompanhar 20 solos, decidi por seguir um processo de escuta institucional e focar na subjetividade de cada um dos solistas e na harmonia contextual, pesquisa que estava a realizar paralelamente à ciberfonia#2. O importante aqui talvez seja notar que a composição não tem o intuito de servir de base à performance mas sim de servir de disparador emocional para o intérprete. Ao fim do processo, escrevi a seguinte carta à companhia como libreto da parte que me sobrou no fundo musical.

 
Novas presenças,
Difícil falar, difícil fazer. Fizemos o que quisemos. Não há ensaio para a vida, apesar de alguns insistirem em fazer meramente o que podem.
The only news is bad news. Representação e repressão coagem na redução do corpo a linguagem. Minha gratidão aos corpos que mantiveram-se em arte apesar do picadeiro burocrático, meu amor à poesia feita com restos de manuais de instrução, tábuas morais, obituários e bulas médicas. Só o que não tem o que dizer engole a língua morta de Zoroastro sem mastigá-la.
Suor algum jamais deixou entressaber o sabor de um sangue, o esforço é imanente e o aquecimento pouco se sente nos desertos de gelo onde Narciso mendiga impondo a atenção da platéia.
Solo em suas incontáveis camadas de solidão, quem ainda tem amor o bastante para se pôr numa mão trêmula de gana e ânsia a apontar uma direção vazia qualquer? Desta entrega se arteia o fogo intensificante das mariposas, mas os carrapatos se alimentam dos cães mais dóceis.
Vi escadas quebrarem por menos que um degrau podre no seu topo. No teatro elizabetano é uma só voz que se ouve nas distintas bocas, não a de Shakespear mas a de Elizabeth. Não há público, mas súditos. Não importam os intérpretes, mas os papéis.

Velhas ausências,
Tênue linha que depara a falsa inocência agridoce do pseudoxamã picareta com o sinismo do capitão donatário. Toda Compania de Teatro tem um pouco de Compania das Índias. De gota em gota de fel, a preguiça mercenária tensiona o ar para os que ainda respiram paixão. Marcar passo é para os corações frágeis.
Quando o que nos resta de talento a doar se reduz à direção do auto-ofuscamento, a faisquinha de nossos brilhos suspira não mais que vaidades e nostalgias(não concordas Frida?) e todo encontro passa a ser mediado pela mesquinharia, protegida sob a autoproclamada genialidade. Quando o bafo toma o auditório, quão fácil confundir o frescor do trabalho com frescura, teatro sala e teatro gesto.
Enfraquecer as paixões do ato alheio ressalta pela ausência a direção de nossos próprios umbigos nas ovas pretensas. Delicada arte de embalar marionetes pelos refluxos do sentimento na carne, chamadas moedas de troca, pentagramas, cinco são os princípios do corpo encarcerado. É para o centro do espaço coletivo, o diretor gravitacional dos ouros, que se voltam as energias espirais duma mandala, instrumento de hipnose. Humilhar é o fim último desta humildade gentil, dizendo-se sábio experiente das margens se pode ruir toda a criação do outro pelo descrédito e desconfiança. Atores, nada deve ser alcançado a não ser qualquer ato. Diretores, ninguém pode ser dirigido afora de si. Bailarinos, é o corpo todo que escuta. Músicos, o que se compõe é um corpo.
A beleza do poder é a possibilidade não atualizada de sua irresponsabilidade, quem ainda quer ouvir-se no timbre da voz alheia? O pau cú clama máscara e rosto fundidos pela sensibilidade à pele da flor, personalidade não é uma mascarada. Pérnala quebrada da busca por verdades, seivando a primeva que almejas cantou: "Não rompam os ligamentos entre as pessoas para ver os outros cairem de joelhos perante tua autoimagem. Não reduzam as flores a narcisos, olhores. Borboletas são flores que voam, flores que mudam e insetos que dançam!" Quando um lixeiro se corta ao limpar sua casa, não visitaria-lhe os cortes costurando?
Aluno e mestre, actor e senhor escravo especta dor muito me alegra ter cumprido estas doze trilhas através destas vidas, o resto é acidente de trabalho.

Is Kraut Era, Poprog

Exercícios de populismo musical. Magma escorrendo do tímpano de Lezama Lima sobre a orelha de Warhol enquanto Levy Strauss cozinha uma rocha num caldeirão de cera neobarroco.

Elogio ao Tédio


Intervenções na instalação do GIA Bahia no Matadero Madrid para ninguém dizer que eu não estava fazendo nada e pra deixar pra trás a época da redução de danos.

Máquina Burocrítica


Intervenção ruidística. Ir à frente do Edifício Prestes Maia no dia de sua evacuação e proceder da maneira abaixo, conforme consta na ata:2.764.859.904-x de 2006. Deixe Kafka ouvir a escuta prática de Kant nos corredores com Bartleby.


1.Montar bureau;
2.Captar declarações dos despejados;
3.Reduzir as vozes a ruído urbano.

Alice In The Labyrinth Library



The abandoned Adelpha Figueiredo Library near the Tietê dead river turned into a Labyrinth by the Dobra Group(Silvia Mecozzi, Veridiana Zurita, Rafael Adaime & Felipe Ribeiro). Thanks Fernando Marques Penteado and Düskievöeien Orchestra.

Deja Vù


Malievitch escuta sua orelha direita com a esquerda. Mondrian o escuta com atenção neste processo.

Transtorno

I. Harmonias inconscientes:

Os cerca de trinta mil tatos das membranas basilares, estes osciladores de aproximadamente 35mm, respondem ao impacto de uma estreita banda freqüencial das ondas sonoras, e de acordo com sua posição em relação aos nervos auditórios vertem as freqüências e fases sonoras em impulsos elétricos. A quimera tácita demandaria a fixidez deste ínfimo movimento . Apesar do alcance de captação plena e constante da faixa vibrante entre +/-20 a 20,000Hz, trabalhamos com uma dilatação e retração do foco consciente auditivo muito variável, fora do qual ocorrem as micro e macro harmonias inconscientes.
Os ritmos elétricos dos neurotransmissores cerebrais, cocientes de todas as freqüências que cruzam o corpo, sintetizam-se entre +/-1 a 30Hz podendo ser descritos como o metainfrassom da mente. Os sentimentos, mapeamentos cerebrais do corpo em relações específicas, desvela à faculdade musical no seu sentimentalizar do som, estabelecimento de rotas dos ruídos do, e no, corpóreo .
Os organismos harmonizam suas orquestras homeostáticas através destes impulsos elétricos que variam sua sinfonia de acordo com as necessidades do corpo na sua incessante busca por equilíbrio e bem-estar. Seu funcionamento varia desde o mais lento possível como na faixa +/-(Delta ~ 1 a 4Hz)  que possibilita o desprendimento egóico para as regulações do metabolismo, das respostas imunitárias e dos reflexos básicos realizadas somente no sono profundo (REM); passando às ondas +/-(Theta ~ 4 a 8Hz) que regularizam os comportamentos de dor e prazer e com isso os alicerces das emoções como nos estados de transe, anestesia e relaxamento; chegando à gama consciente +/-(Alpha  ~ 8 a 12Hz) onde se recompõem os recursos minerais e se ampliam as sensibilidades nervosas e a velocidade de conexões sinápticas, e acelerando-a até o estado +/-(Beta ~ 16 a 24Hz) de alerta, concentração e aceleração do metabolismo através da queima adicional de adrenalina e proteínas .
Estes estados coexistem aparalelamente no organismo que as focaliza de acordo com suas necessidades moleculares, fuga da dor e busca do prazer, que alicerceiam a cristalização de certos hábitos na programação neurolinguística .
O planeta sobre o qual musicamos também ressoa em sua ionosfera durante seus movimentos de rotação e translação. As reverberações das suas instabilidades ondulares, reflexos das relações de forças entre toda a complexidade harmônica de sons nela presentes e os demais corpos celestes, variantes entre 8 a 45Hz . Terra e Humanos são organismos em uma relação que a harmonia clássica estabeleceria como dissonância dominante  e trabalham, não coincidentemente, em grande parte na mesma faixa de freqüência.
A concha e o das dasein est rondo, o corpo é a casa é o mundo . Tudo se ativa quando se acumulam contradições, a ciranda do boi é o labirinto do minotauro. À jam se comunica como nos conscertos ante às partitas, às energias que reverberam as próprias estruturas de um corpoambiente. Fazer o magnetismo dos falantes e metais estruturais reencontrarem suas ancestralidades na terra, subjetivar os objetos. Todas as tecnologias não são mais que um mito , e nisto um libretto seria escrito ad infinitum .
O som de um ambiente reverberado nele mesmo nos joga no paralaxx, onde as infinitas particularidades dos corpos entre a certeza da morte e a impossibilidade do silêncio se interprenetam Liberando o ato na probabilidade, randomização e improviso com os elementos previamente ensaiados pelos performantes ao mesmo tempo que liberando o som do texto  imanente pelo freqüencismo coloral, criando massas estocásticas,  nuvens, galáxias, campos harmônicos afectivos de multipolaridades atonais, tonais e modais; desvirtuando o caráter absoluto das estruturas cromáticas transitando entre hiperserialismos e minimalismos frequenciais.
As posteriores concordâncias entre as diversas faculdades se relacionam com a harmonia entre os dados dos sentidos aí dispostas, e estas nunca eternas, abismam entre coerência e crença  trazendo à tona a impossibilidade das esferas no fenômeno. A mente frente à beleza incompreensível de si mesma, feita círculo pluridimensional, torno de tornos da lama lógos, encontra o seu limite no saber-se impotente e pode então no des-esperar dançagir , manejar a rede de lemes de redes, cibernética.


 II. Corprótesespaço, dança das esferas:

A presença em movimento do corpo parte das redes de interlocução possíveis entre espaço construído, público e objetos (aparatos e próteses). Não há a possibilidade de que a dança seja elaborada dissociadamente de toda a composição maquínica e das engrenagens potencializadoras das relações entre espaço e corpo em desdobramento. 
Se direcionamos o corpo a uma dança esférica, isto consiste muito mais nos mecanismos de um enredamento noosférico do que nas imagens que giram em uma mimética do círculo . Hipnotizadores e hipnotizáveis através da constante ou fragmentada aparição da gira , os corpos experimentam um transtorno, mas mais do que isso, suas potências conströem a dança no encontro de um corpoespaço.
É nesse caminho que o pensamento corpo segue. Como fazer parte de um mesmo ambiente que outros corpos e no mesmo dissociar-se, desmembrar-se identificando-se da e na multidão ?
O bailarino desloca-se no espaço como portador do ambiente que o circunda. Desloca o som e é deslocado por ele, comportando no corpo a memória sonora impressa na subjetividade ao longo de sua história. As próteses falantes são esse mecanismo do corpo evidenciado, como uma literalização dos sentidos, um extrovertimento das memórias sensoriais.
A prótese se relaciona com o bailarino como o bailarino se relaciona com o ambiente, dança nele. O corpo, então, não é mais ele mesmo , não se resume ao visível e palpável, não se delimita mais no próprio contorno .
Em um mundo de exaltação e esgotamento informacional, os sentidos passam de instrumento de re-conhecimento do próprio corpo no ambiente a um mecanismo estanque de identificações pré-estabelecidas a estímulos absolutamente partiturizados. Deixamos morrer seu frescor de sensação primeira , desapropriamos por completo a possibilidade de sentir em sua totalidade. O corpo carrega os sentidos como apêndices de sua própria carne, amortece seus fluxos em uma tentativa de não mais responder aos estímulos de um ambiente exaurido.
Projeções do porvir, nossas idéias diante do perceptível não se configuram mais como arquiteturas ou estratégias nossas, mas como uma computação funcional constante do confluir com o mundo.
Se por um lado esse confluir libera o si como abertura de possibilidades em um ambiente de riqueza informacional, este pensar e agir de acordo com o rebanho, trama influências ao corpo, prendendo-o e isolando-o da possibilidade de criar suas próprias nomenclaturas, marginalizando seus desejos e emoções, coibindo sua interação sensitiva com o mundo. Nos prendemos crendo já saber a gama de possiblidades reativas possíveis dos sentidos, nomeamos antes de termos sentido. Carregamos no próprio corpo, próteses invisíveis, livros de receitas aos sentidos e às interações com o mundo.
Nos apropriamos do pensamento alheio, mimetizamos as ações que nos cruzam apenas sem nos (re)configurarmos a todo momento a partir do encontro com o outro. 
Quando não roubamos mais nada do outro é porque aquilo que ele nos apresenta já é parte de nós mesmos, e a  paleta interativa se mostra não mais que o senso-comum. Troca e relação cedem a economia e alienismo confluindo na inércia e amortecimento dos sentidos, a pseudointeração individualizante do virtual.
Ressaltar estes transtornos entre corpos físicos e abstratos que trespassam a subjetividade aproxima-nos do som (a sensibilidade da duração de que dispomos, além das memórias: imagens-tempos entrelaçadas a um espaço eterno subtraído pelo foco). Um corpo enquanto ambiente ou espaço de si mesmo reconfigura suas percepções no confluir com outros sistemas. Criando um terceiro corpo que não o próprio ou a prótese mas a imanência da relação, aprofundamo-nos na pausa para as percepções primeiras, um silenciar dos motores inertes e capturados nas reações pré-estabelecidas pelo aparelho habitualizante. Re-vestir  o próprio corpo , reconhecer-se construído além do eu e observar o outro que imageticamente pode se deflagrar em uma mesma situação, mas que comporta em sua experiência o absurdo da identidade no encontro mediado pelo maquínico. 
A relação meramente funcional  entre homem e máquina levada a seu extremo, um corpo que aciona a prótese e é acionado por ela, exaure as possibilidades de interação corporal e torna-o capturável pelas regras que acompanham tais mecanismos, o kitsch .



III. Inconscientes harmônicos:
Os sons que nos precedem à existência e ainda estão por cessar são indissociáveis da nossa utopia sentimental do silêncio: são a substância, a emoção de fundo, de nossas arbitrariedades harmônicas.
Através da musicæ , tentativa de apaziguar o tormento deste ouvir transconsciente à demasiado complexa harmonia do mundo, reduz-se o foco auditivo a um espectro compreensível, e preferivelmente confortável, das faculdades neuropsicológicas do ouvintecompositor. Esta relação ambígua da estética enquanto a ordenação da complexidade , permite-nos tanto experimentar às transformações da audição orbitando ao ideal simétrico sob a gravidade sensível-racional do corpo quanto encurralar no ângulo fechado dos cantos entre melodia, cortimbre, ritmo e harmonia as infinitesimais arestas das freqüências de nossa esférica escuta .
Deixamos que esta segunda imagem de harmonia reverberasse em todas nossas relações com o musical dividindo os gestos de intuição-criação das de representação em palcos tridimensionais e interpretação padronizada de instrumentos padrão, para encaixar o movimento no espaço, partituramos. Por querermos controlar o belo e o sublime acabamos por destruí-los .
Sustentando este grande musical espetáculo da institucionalização da intuição, o som comprimido em três dimensões serve de massa para as arquiteturizações pseudobarrocas de escadarias ascé(p)ticas de compositores feitos ícones da seriedade sacra deste ofício. O músico reduzido a ator de música  advoga seu conhecimento da lei de seu instrumento masturbador, e virtuose que é, com o que resta do lúdico dado ao erro, toreia o ruir sob o véu-técnica e este sistema especialista veste seu ídolo.
As disciplinas formais dos estilos, frente às quais se prostram estes tardios intérpretes copistas, mascaram na logomítica marcha storia-scientia  suas para-doxas religiosas de retroalimentação entre o paraíso perdido da forma e a esperança no juízo final, confortando as estreitezas dimensionais  de nosso espectro de sensibilidade na linearidade do progresso, para enfim, na nostalgia do presente fazer da própria existência ensaio  de seu produto gregário, a obra . Reduzidas as músicas assim a A Música, objeto de consumação: repetição dos resultados certeiros em lugar dos processos de devaneio através das impossibilidades das certezas. Eficácia plena da gestão sócio-econômica do gozo fetichizado em um refinamento cultural . A música tal qual o corpo, porém, é algo para muito além do prazer .
O que toca o humano ao tempo segue em cânone contra as barreiras culturais que almejam ao estético estático. Entre ambos, fugas dos ouvires na contínua instabilidade do saber-poder, as ondas das modas entrelaçam as harmonias das eras. O estudo harmônico para chegar aos axiomas da mathesis isolava a música numa audição idealista. Relevando como ruído, a relação entre as incontáveis faculdades  da ecologia cognitiva de um ouvintecompositor, e ainda o vão-elo entre diversas subjetividades, estes inconscientes harmônicos. As artes, estes organismos vivos evoluindo a uma velocidade estonteante entre nós, meros hospedeiros , seguem porém se destruindo e unindo mutuamente em busca de uma harmonia contemporânea .
A crítica à teoria das esferas  através dos limites epistemológicos feita pelo sintetista logoi technai deixa saltar aos ouvidos o religare entre crença e ciência no tetratkys . Nossas concepções harmônicas surgem das consonâncias e dissonâncias para com os sons inconscientes, não o contrário, como se as estrelas seguissem o princípio da humana música. Esta assunção verídica, porém, é senão uma arma numa velada disputa entre dois métodos de cerceamento das possibilidades auditivas pelo controle na antropomorfose do sonoro. Qual prisão seria a mais adequada para a intuição musical, o número ou a palavra? O cantochão balbuciaria, os cantos gregorianos sussurrariam e a sinfonia em fortíssimo clarearia: ambos! O inegável triunfo da ópera e da canção  estão intimamente ligados à necessidade desta criação de uma audição dócil , conforme com a lei dos números, desta agricultura dos nômades sons, literaturização do gado ouvinte humano . Neste sentido, o jazz foi de fato, como querem alguns , a continuação da música eruditista européia, nela somando através da imagética de emancipação não mais que o cálculo rítmico enquanto variável das sonatas modernistas.
O ideal da (de)composição moderna  desemboca nas experiências limítrofes da dialestética sonora do século XX  iniciando a transmediação do texto e seu contexto na formação de texturas . Que sons queremos que nos vistam? Como liberar as artes übermensch de nós? Passos primeiros duma nova estruturação das sempre crescentes dimensões da existência humana, este eterno retorno ao equilíbrio entre o caos do ouvir ao ruído-mundo e a necessidade da ordenação cristã dos rebanhos de mercados musicais, passam pela reinvenção do músico de papel  enquanto xamã  do ritual-jogo do ócio, imanência do maestro , carcereiro panóptico e metrônomo intensivo; em busca de um renascimento da música no espírito da filosofia trágica.